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Scientific Article

Pré-Natal Odontológico

Sandra Echeverria

Kelly Moreira

Bruna Moro

Mariana Da Nóbrega Baqueiro


A gravidez é um estado fisiológico transitório que provoca diversas alterações hormonais na mulher. As repercussões são generalizadas e também se apresentam na forma de  diversas alterações orais¹. Entre as afecções mais prevalentes destacam-se a gengivite, a periodontite, a cárie dentária e a erosão dentária². Dentre essas, a doença periodontal apresenta correlação positiva com desfechos adversos gestacionais e para os bebês, como: nascimento prematuro, baixo peso ao nascimento e aumento do risco de pré- eclâmpsia. 

A gravidez constitui-se também em um período ideal para promover a prevenção da Cárie na Primeira Infância (CPI), dada a profunda influência da saúde bucal materna e dos comportamentos na saúde bucal infantil. Desse modo, intervenções no período pré-natal podem além de reduzir risco para complicações obstétricas, favorecer a prevenção da CPI³. 

Além disso, a gestação compreende um período conhecido como primeiros mil dias de vida, período ideal para prevenção das chamadas doenças crônicas não transmissíveis (DNTs) das quais fazem parte a doença cárie e a doença periodontal. 

Por esse motivo, o Ministério da Saúde tem investido na prática do chamado Pré-Natal odontológico (PNO), com intuito claro de prevenção dessas DNTs para o bebê até sua idade adulta e para reduzir os riscos de complicações obstétricas.

O PNO é composto de duas fases distintas. A primeira deve ter início tão logo a mulher engravide e a segunda na 32a semana de gestação. A primeira fase compreende orientação para a gestante em relação a sua condição bucal e o tratamento odontológico da gestante . a segunda fase, orientações em relação aos cuidados que a gestante deverá ter com seu bebê pós nascimento.

O tratamento odontológico da gestante compreende uma das etapas da primeira fase do pré-natal odontológico. Essa fase é de suma importância, pois a literatura científica demonstra claramente a relação entre doença periodontal e aumento do risco de complicações obstétricas, como baixo peso ao nascer, prematuridade e pré-eclâmpsia⁴.

Outras patologias frequentemente presentes na cavidade oral da gestante, como cárie dentária e abscessos severos de origem endodôntica, também devem ser tratadas adequadamente, pois podem levar a condições infecciosas disseminadas durante a gestação que podem resultar em complicações tanto para a gestante quanto para o bebê, podendo inclusive levar ao óbito, conforme relatos5. Além disso, podem interferir de forma direta na qualidade de vida da gestante.

Orientações para o futuro bebê

As orientações fornecidas às gestantes sobre o bebê correspondem à segunda fase do pré-natal odontológico e devem ocorrer por volta da 32ª semana de gestação. Essa consulta deve abordar temas relacionados à saúde bucal do bebê, como promoção do aleitamento materno, orientações sobre uso de chupetas e mamadeiras, importância da higiene bucal, alimentação saudável e impactos negativos do açúcar.

A Organização Mundial da Saúde recomenda o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de vida e sua continuidade até pelo menos os 2 anos, com introdução alimentar a partir dos 6 meses6. Essa recomendação se justifica porque o aleitamento materno vai além da nutrição, prevenindo a mortalidade infantil e promovendo qualidade de vida a curto e longo prazo6.

A sucção do seio materno libera ocitocina, prolactina e outros metabólitos que fortalecem o vínculo mãe-bebê e reduzem o estresse fisiológico de ambos7. Além disso, há transferência de elementos da microbiota materna para o bebê, contribuindo para o desenvolvimento do sistema imunológico, digestão e proteção contra doenças8.

Do ponto de vista odontológico, o aleitamento materno favorece o desenvolvimento craniofacial e reduz o risco de maloclusões9. Durante a amamentação, há maior atividade muscular facial, enquanto o uso de mamadeira promove movimentos mais passivos, aumentando o risco de alterações oclusais10.

Os dentes decíduos geralmente erupcionam a partir dos 6 meses e completam-se por volta dos 36 meses, com variações individuais. A escovação deve iniciar com o surgimento do primeiro dente, utilizando escova adequada e pequena quantidade de creme dental fluoretado (≥1000 ppm), duas vezes ao dia11.

O flúor previne e controla a progressão da cárie, sendo que dentifrícios com menos de 1000 ppm não são eficazes12. 

Outra medida essencial é a redução do consumo de açúcares livres, presentes em alimentos industrializados, mel, xaropes e sucos13,14 Recomenda-se evitar açúcares livres em menores de 2 anos14.

Após a introdução do açúcar, a OMS recomenda que o consumo não ultrapasse 10% da ingestão calórica diária, sendo ideal abaixo de 5%14. Essas medidas visam prevenir doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade e diabetes, além da cárie dentária15.

O pré-natal odontológico é um direito de todas as mulheres e seus bebês e um dever de todo dentista.

Figs 1e 2- primeira etapa do pré-natal (anamnese e orientação da Gestante)

Figuras 3 e 4 tratamento odontológico da gestante

Profa. Dra. Sandra Echeverria

Mini currículo dos Autores:

Profa. Dra. Sandra Echeverria 

Graduada em Odontologia pela FOP- Universidade Estadual de Campinas

Especialista em Odontopediatria pela Associação Paulista de Cirurgiões-

Dentistas

Especialista em Acupuntura pela Associação Brasileira de Acupuntura 

Especializanda em TEA pelo Instituto Israelita de Ensino Albert Einstein

Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana 

Mackenzie

Doutora em Odontopediatria pela Faculdade de Odontologia da Universidade 

de São Paulo

Professora da Pós-Graduação na SLMANDIC e FUNDECTO-USP

Professora Titular das Disciplinas de Ortodontia Preventiva e Odontopediatria

 da Pontifícia Universidade Católica de Campinas

[email protected]

Profa. Dra. Kelly Maria Silva Moreira 

⁠Graduada em Odontologia pela UFMG

 ⁠Especialista em Estratégia em Saúde da Família pela UFMG

 Especialista em Odontopediatria pela SLMandic

 Mestre em Odontopediatria pela FOP/UNICAMP

 ⁠Doutora em Odontopediatria pela FOP/UNICAMP

 ⁠Pós-doutora no HRAC/USP

 Pós-graduada em Estética pela ABO 

 ⁠Professora da Pós-Graduação na SLMANDIC - Campinas 

 ⁠Palestrante Internacional 

 Autora de Livros 

 ⁠Diretora na IOPED, e Odontopediatra na Politano Odontopediatria e Ortodontia e HM Kids

[email protected]

 

Prof. Dra. Bruna Lorena Pereira Moro

Doutora, Mestre e Especialista em Odontopediatria pela FOUSP 

Estágio de pesquisa no exterior durante o doutorado na University of Copenhagen, Dinamarca, na área de Cariologia 

Professora dos Cursos de Pós-graduação em Odontopediatria da Faculdade São Leopoldo Mandic 

Coordenadora Acadêmica da Especialização em Odontopediatria da Faculdade São Leopoldo Mandic 

Professora de Odontopediatria no Curso de Graduação em Odontologia da FOUSP 

Professora no Curso de Especialização em Odontopediatria com Ênfase em Bebês para Estrangeiros da FAOA

[email protected]

 

Mariana da Nóbrega Baqueiro

Graduada em Odontologia pela PUC - Campinas

Especializanda em Odontopediatria - SLMANDIC - Campinas

[email protected]

Referências

 

1- Marla V, Srii R, Roy DK, Ajmera H. The Importance of Oral Health during Pregnancy: A review. MedicalExpress (São Paulo, online) [Internet]. 2018;5.

2- Ministério da Saúde, Saúde Bucal da Gestante, Brasil,2022, 11 páginas.

3- Xiao J, Alkhers N, Kopycka-Kedzierawski DT, Billings RJ, Wu TT, Castillo DA, Rasubala L, Malmstrom H, Ren Y, Eliav E. Prenatal Oral Health Care and Early Childhood Caries Prevention: A Systematic Review and Meta-Analysis. Caries Res. 2019;53(4):411-421. 

4- Silk H, Douglass AB, Douglass JM, Silk L. Oral health during pregnancy. Am Fam Physician. 2008 Apr 15;77(8):1139-44. 

5- Pucci R, Cassoni A, Di Carlo D, Monaca M D, Romeo U, Valentini V. Severe Odontogenic Infections during Pregnancy and Related Adverse Outcomes. Case Report and Systematic Literature Review. Tropical Medicine and Infections Disease. 2021;6, 106. 

6- WHO. Breastfeeding 2021. https://www.who.int/health-topics/breastfeeding#tab=tab_1.

7- Uvnäs Moberg K, Ekström-Bergström A, Buckley S, et al. Maternal plasma levels of oxytocin during breastfeeding — a systematic review. PLoSOne 2020; 15: e0235806.

8- Miller EM. Beyond passive immunity: breastfeeding, milk and collaborative mother–infant immune systems. In: Tomori C, Palmquist AEL, Quinn EA. Breastfeeding. London: Routledge,2018: 26–39.

9- Peres KG, Cascaes AM, Nascimento GG, Victora CG. Effect of breastfeeding on malocclusions: a systematic review and meta analysis. Acta Paediatr 2015; 104: 54–61.

10- Viggiano D, Fasano D, Monaco G, Strohmenger L. Breastfeeding, bottlefeeding, and non-nutritive sucking; effects onocclusion in deciduous dentition. ArchDis Child 2004; 89:1121–3.

11- WorldHealthOrganization. Preventing disease  through healthy environments: inadequate  or excess fluoride: a major public health concern. Geneva: World Health Organization, 2019 (https://apps.who.int/iris/handle/10665/329484).

12- Walsh T, Worthington HV, Glenny AM, Marinho VC, Jeroncic A. Fluoride toothpastes of different concentrations for preventing dental caries. Cochrane Database Syst Rev. 2019 Mar 4;3(3):CD007868. doi: 10.1002/14651858.CD007868.pub3. PMID: 30829399; PMCID: PMC6398117.

13- World Health Organization. Sugars and dental caries. Geneva: World Health Organization, 2017. (https://apps.who.int/iris/handle/10665/259413).

14- Prevention and treatmentof dental caries withmercury-free products and minimal intervention: WHO oral health briefing note series. Geneva: World Health Organization; 2022. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO.

15- Pitts N, Baez R, Diaz-Guallory C, et al. Early Childhood Caries: IAPD Bangkok Declaration. Int J Paediatr Dent. 2019;29:384-386.