A gravidez é um estado fisiológico transitório que provoca diversas alterações hormonais na mulher. As repercussões são generalizadas e também se apresentam na forma de diversas alterações orais¹. Entre as afecções mais prevalentes destacam-se a gengivite, a periodontite, a cárie dentária e a erosão dentária². Dentre essas, a doença periodontal apresenta correlação positiva com desfechos adversos gestacionais e para os bebês, como: nascimento prematuro, baixo peso ao nascimento e aumento do risco de pré- eclâmpsia.
A gravidez constitui-se também em um período ideal para promover a prevenção da Cárie na Primeira Infância (CPI), dada a profunda influência da saúde bucal materna e dos comportamentos na saúde bucal infantil. Desse modo, intervenções no período pré-natal podem além de reduzir risco para complicações obstétricas, favorecer a prevenção da CPI³.
Além disso, a gestação compreende um período conhecido como primeiros mil dias de vida, período ideal para prevenção das chamadas doenças crônicas não transmissíveis (DNTs) das quais fazem parte a doença cárie e a doença periodontal.
Por esse motivo, o Ministério da Saúde tem investido na prática do chamado Pré-Natal odontológico (PNO), com intuito claro de prevenção dessas DNTs para o bebê até sua idade adulta e para reduzir os riscos de complicações obstétricas.
O PNO é composto de duas fases distintas. A primeira deve ter início tão logo a mulher engravide e a segunda na 32a semana de gestação. A primeira fase compreende orientação para a gestante em relação a sua condição bucal e o tratamento odontológico da gestante . a segunda fase, orientações em relação aos cuidados que a gestante deverá ter com seu bebê pós nascimento.
O tratamento odontológico da gestante compreende uma das etapas da primeira fase do pré-natal odontológico. Essa fase é de suma importância, pois a literatura científica demonstra claramente a relação entre doença periodontal e aumento do risco de complicações obstétricas, como baixo peso ao nascer, prematuridade e pré-eclâmpsia⁴.
Outras patologias frequentemente presentes na cavidade oral da gestante, como cárie dentária e abscessos severos de origem endodôntica, também devem ser tratadas adequadamente, pois podem levar a condições infecciosas disseminadas durante a gestação que podem resultar em complicações tanto para a gestante quanto para o bebê, podendo inclusive levar ao óbito, conforme relatos5. Além disso, podem interferir de forma direta na qualidade de vida da gestante.
Orientações para o futuro bebê
As orientações fornecidas às gestantes sobre o bebê correspondem à segunda fase do pré-natal odontológico e devem ocorrer por volta da 32ª semana de gestação. Essa consulta deve abordar temas relacionados à saúde bucal do bebê, como promoção do aleitamento materno, orientações sobre uso de chupetas e mamadeiras, importância da higiene bucal, alimentação saudável e impactos negativos do açúcar.
A Organização Mundial da Saúde recomenda o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de vida e sua continuidade até pelo menos os 2 anos, com introdução alimentar a partir dos 6 meses6. Essa recomendação se justifica porque o aleitamento materno vai além da nutrição, prevenindo a mortalidade infantil e promovendo qualidade de vida a curto e longo prazo6.
A sucção do seio materno libera ocitocina, prolactina e outros metabólitos que fortalecem o vínculo mãe-bebê e reduzem o estresse fisiológico de ambos7. Além disso, há transferência de elementos da microbiota materna para o bebê, contribuindo para o desenvolvimento do sistema imunológico, digestão e proteção contra doenças8.
Do ponto de vista odontológico, o aleitamento materno favorece o desenvolvimento craniofacial e reduz o risco de maloclusões9. Durante a amamentação, há maior atividade muscular facial, enquanto o uso de mamadeira promove movimentos mais passivos, aumentando o risco de alterações oclusais10.
Os dentes decíduos geralmente erupcionam a partir dos 6 meses e completam-se por volta dos 36 meses, com variações individuais. A escovação deve iniciar com o surgimento do primeiro dente, utilizando escova adequada e pequena quantidade de creme dental fluoretado (≥1000 ppm), duas vezes ao dia11.
O flúor previne e controla a progressão da cárie, sendo que dentifrícios com menos de 1000 ppm não são eficazes12.
Outra medida essencial é a redução do consumo de açúcares livres, presentes em alimentos industrializados, mel, xaropes e sucos13,14 Recomenda-se evitar açúcares livres em menores de 2 anos14.
Após a introdução do açúcar, a OMS recomenda que o consumo não ultrapasse 10% da ingestão calórica diária, sendo ideal abaixo de 5%14. Essas medidas visam prevenir doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade e diabetes, além da cárie dentária15.
O pré-natal odontológico é um direito de todas as mulheres e seus bebês e um dever de todo dentista.
Figs 1e 2- primeira etapa do pré-natal (anamnese e orientação da Gestante)
Figuras 3 e 4 tratamento odontológico da gestante
Referências
1- Marla V, Srii R, Roy DK, Ajmera H. The Importance of Oral Health during Pregnancy: A review. MedicalExpress (São Paulo, online) [Internet]. 2018;5.
2- Ministério da Saúde, Saúde Bucal da Gestante, Brasil,2022, 11 páginas.
3- Xiao J, Alkhers N, Kopycka-Kedzierawski DT, Billings RJ, Wu TT, Castillo DA, Rasubala L, Malmstrom H, Ren Y, Eliav E. Prenatal Oral Health Care and Early Childhood Caries Prevention: A Systematic Review and Meta-Analysis. Caries Res. 2019;53(4):411-421.
4- Silk H, Douglass AB, Douglass JM, Silk L. Oral health during pregnancy. Am Fam Physician. 2008 Apr 15;77(8):1139-44.
5- Pucci R, Cassoni A, Di Carlo D, Monaca M D, Romeo U, Valentini V. Severe Odontogenic Infections during Pregnancy and Related Adverse Outcomes. Case Report and Systematic Literature Review. Tropical Medicine and Infections Disease. 2021;6, 106.
6- WHO. Breastfeeding 2021. https://www.who.int/health-topics/breastfeeding#tab=tab_1.
7- Uvnäs Moberg K, Ekström-Bergström A, Buckley S, et al. Maternal plasma levels of oxytocin during breastfeeding — a systematic review. PLoSOne 2020; 15: e0235806.
8- Miller EM. Beyond passive immunity: breastfeeding, milk and collaborative mother–infant immune systems. In: Tomori C, Palmquist AEL, Quinn EA. Breastfeeding. London: Routledge,2018: 26–39.
9- Peres KG, Cascaes AM, Nascimento GG, Victora CG. Effect of breastfeeding on malocclusions: a systematic review and meta analysis. Acta Paediatr 2015; 104: 54–61.
10- Viggiano D, Fasano D, Monaco G, Strohmenger L. Breastfeeding, bottlefeeding, and non-nutritive sucking; effects onocclusion in deciduous dentition. ArchDis Child 2004; 89:1121–3.
11- WorldHealthOrganization. Preventing disease through healthy environments: inadequate or excess fluoride: a major public health concern. Geneva: World Health Organization, 2019 (https://apps.who.int/iris/handle/10665/329484).
12- Walsh T, Worthington HV, Glenny AM, Marinho VC, Jeroncic A. Fluoride toothpastes of different concentrations for preventing dental caries. Cochrane Database Syst Rev. 2019 Mar 4;3(3):CD007868. doi: 10.1002/14651858.CD007868.pub3. PMID: 30829399; PMCID: PMC6398117.
13- World Health Organization. Sugars and dental caries. Geneva: World Health Organization, 2017. (https://apps.who.int/iris/handle/10665/259413).
14- Prevention and treatmentof dental caries withmercury-free products and minimal intervention: WHO oral health briefing note series. Geneva: World Health Organization; 2022. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO.
15- Pitts N, Baez R, Diaz-Guallory C, et al. Early Childhood Caries: IAPD Bangkok Declaration. Int J Paediatr Dent. 2019;29:384-386.