A pele de um recém-nascido é uma barreira protetora que abriga uma ampla diversidade de microrganismos, coletivamente conhecidos como microbioma cutâneo. O microbioma cutâneo desempenha um papel crucial na saúde e no desenvolvimento do lactente, influenciando respostas imunológicas, saúde da pele e o bem-estar geral.¹ O microbioma cutâneo começa a se formar durante a gestação e é “semeado” ao nascimento, continuando a crescer e se diversificar até a puberdade, quando mudanças hormonais e de desenvolvimento moldam uma composição mais estável, que persiste ao longo da vida adulta. Portanto, compreender como as práticas de cuidado com a pele do recém-nascido interagem com o microbioma cutâneo é essencial para promover um desenvolvimento saudável.
O que é o microbioma cutâneo?
O microbioma cutâneo consiste em cerca de um milhão de bactérias, fungos, vírus e outros microrganismos por centímetro quadrado de superfície da pele. Esses microrganismos contribuem para várias funções, incluindo a proteção contra patógenos, a regulação do pH da pele e o auxílio no desenvolvimento do sistema imunológico.¹
Nos recém-nascidos, o microbioma cutâneo é particularmente importante, pois estabelece as bases para a colonização microbiana e pode influenciar os desfechos de saúde ao longo da vida. A pesquisa sobre a importância de um microbioma diversificado ainda está em estágios iniciais, mas já existem ligações correlacionais entre mudanças no microbioma intestinal e cutâneo e os impactos na saúde e no bem-estar ao longo do curso de vida.²
A colonização inicial do microbioma cutâneo ocorre durante a gestação, com alterações observadas em famílias que possuem animais de estimação e também em relação ao uso de antibióticos.³ A colonização continua no nascimento, sendo influenciada por vários fatores, incluindo o tipo de parto (normal ou cesariana), idade gestacional, genética, microbioma materno e exposições ambientais.²,⁴
Quando os bebês nascem por parto vaginal, o microbioma é adquirido a partir da flora vaginal materna, rica em Lactobacillus spp. e outras bactérias benéficas. Em contraste, bebês nascidos por cesariana podem ser colonizados por microrganismos da pele e do ambiente, levando a diferenças na diversidade e composição microbiana.⁵
O contato pele a pele no nascimento com a mãe ou segundo cuidador também mostrou promover o desenvolvimento saudável do microbioma cutâneo.⁵,⁶ A continuidade do contato pele a pele no período pós-natal traz benefícios adicionais para o microbioma cutâneo.⁷
Além disso, o método canguru – prática de manter bebês prematuros em contato direto pele a pele – também apresenta benefícios positivos para o microbioma cutâneo.⁸ O ato de amamentar transfere bactérias benéficas da pele e do leite materno para o lactente, enriquecendo ainda mais sua comunidade microbiana.⁸
A diversidade microbiana é essencial para um microbioma cutâneo saudável. Um microbioma diverso pode aumentar a capacidade da pele de combater patógenos, regular a inflamação e apoiar a função imunológica.⁹ Para os recém-nascidos, estabelecer uma comunidade microbiana robusta logo no início da vida é crucial, pois estabelece a base para o desenvolvimento imunológico e a saúde da pele. Incentivar essas práticas proporciona aos recém-nascidos exposição a uma ampla gama de microrganismos, promovendo um microbioma equilibrado.¹⁰
Vernix
O vérnix caseoso, frequentemente chamado apenas de vérnix, é uma substância cerosa e esbranquiçada que recobre a pele dos recém-nascidos ao nascimento. Composto por água, lipídios e proteínas, o vérnix desempenha várias funções importantes: atua como uma barreira protetora contra o líquido amniótico, prevenindo danos à pele e auxiliando na hidratação durante a gestação. Além disso, o vérnix possui propriedades antibacterianas que ajudam a proteger a pele do recém-nascido contra infecções.¹¹,¹²
Historicamente, o vérnix era frequentemente removido logo após o nascimento, seja com uma limpeza inicial, seja com o banho do bebê no primeiro dia. Atualmente, recomenda-se o contato pele a pele imediato quando for seguro realizá-lo. Pesquisas sugerem que o vérnix também pode desempenhar um papel na termorregulação, reduzindo a perda de calor após o nascimento.¹³ Embora comece a se desprender naturalmente logo após o parto, muitos profissionais de saúde recomendam deixar o vérnix na pele do bebê por algum tempo para maximizar seus benefícios protetores.¹¹
Banho
Hidratação
Atualmente, as pesquisas são inconclusivas sobre o uso de emolientes no microbioma cutâneo do recém-nascido.³ O único estudo até agora que mostrou benefícios do uso de hidratantes em recém-nascidos utilizou produtos comerciais e foi financiado e conduzido pela própria empresa, com grande potencial de viés.¹⁶
No momento, a recomendação é evitar qualquer produto hidratante na pele do recém-nascido, a menos que indicado individualmente por um profissional de saúde em caso de necessidade.¹⁵
Protegendo a Barreira Cutânea
A barreira cutânea atua como a primeira linha de defesa contra patógenos e irritantes ambientais. Práticas de cuidado que preservem a integridade dessa barreira são essenciais para manter um microbioma cutâneo saudável.
Os pais devem evitar o uso de lenços umedecidos perfumados ou sabonetes com fragrância no primeiro mês, pois eles podem alterar o microbioma e comprometer a função de barreira.¹⁷
Após o primeiro mês de vida, os pais podem optar por usar sabonetes suaves em produtos de banho. Recomenda-se que sejam suaves, sem fragrância e com pH balanceado, formulados especificamente para bebês.¹⁸
Roupas e Fatores Ambientais
A escolha das roupas e a exposição a fatores ambientais também podem influenciar o microbioma cutâneo. Recém-nascidos devem ser vestidos com tecidos respiráveis e macios para minimizar a irritação e permitir a colonização microbiana adequada.¹⁸
O superaquecimento ou a umidade excessiva podem criar um ambiente propício para bactérias nocivas. Manter um ambiente controlado, com umidade e temperatura adequadas, pode apoiar a saúde da pele e do microbioma do recém-nascido.¹⁸,¹⁹,²⁰,²¹
Discussão
As práticas descritas acima têm um impacto profundo no desenvolvimento e composição do microbioma cutâneo do recém-nascido. Pesquisas mostram que manter um microbioma diverso e equilibrado está associado a menor risco de doenças alérgicas, eczema e outros distúrbios cutâneos.²²,²³
Por outro lado, práticas que perturbam o microbioma podem levar à disbiose – caracterizada por um desequilíbrio das comunidades microbianas – que está relacionada a vários problemas de saúde.²³
Práticas que promovem a diversidade microbiana, como adiar o banho e realizar limpezas suaves, têm sido associadas a menor incidência de condições alérgicas e distúrbios da pele.²¹
Conclusão
As práticas de cuidado com a pele do recém-nascido influenciam o desenvolvimento do microbioma cutâneo, que é vital para a saúde e o desenvolvimento do sistema imunológico do lactente.
Ao adotar práticas mais suaves e amigáveis ao microbioma, os pais podem ajudar a estabelecer um microbioma diverso na pele do recém-nascido, criando bases para benefícios de saúde a longo prazo.
À medida que a pesquisa continua a revelar as complexidades do microbioma cutâneo, a conscientização e a educação sobre os cuidados com a pele do recém-nascido serão essenciais para promover não apenas a saúde da pele, mas também o bem-estar geral das crianças.
Este artigo científico foi escrito por um especialista que recebeu remuneração da MAM. Publicado em outubro de 2025.
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